segunda-feira, 20 de agosto de 2012


Ensaio sobre a timidez escolar

                                                                                            Por : Carlindo Rosa Pereira
 

 Este presente ensaio tem por finalidade discutir a questão da timidez no seu âmbito escolar, pois ela poda o aluno e não permite que ele desenvolva certas habilidades que ele tem, como a fala e a relação com outras pessoas. 
            A palavra timidez vem do latim timor (medo), que é o medo do que vão dizer de nós (cf. Antonio Roberto, Enfrentando a Timidez, jornal Estado de Minas). Mas como estamos falando no âmbito escolar, podemos citar várias situações onde a timidez se manifesta: apresentações de trabalhos, prova oral, e numa classe de língua estrangeira o medo de falar nesta língua.
            A timidez é uma característica pessoal de cada individuo e, segundo alguns estudiosos do assunto, ela é imutável e sem cura. Mas como fazer com uma pessoa tímida numa sala de língua estrangeira? A questão é como fazer e sim o que fazer. Um tímido tem por extinto se retrair numa sala de aula, sentando nas últimas cadeiras e conversando pouco ou quase nada. Isto dificulta a aprendizagem de um aluno tímido, pois língua estrangeira é também conversação. Mas existem níveis de timidez e é nestes níveis que podemos trabalhar.
Segundo Gabriel Cabral (equipe Brasil Escola, www.brasilescola.com/psicologia), existem 5 níveis de timidez: específica, crônica, fobia social, agorafobia e síndrome do pânico, sendo estas duas últimas mais sérias e necessitando de tratamento terapêutico. Com um breve relato sobre cada uma, poderemos entender melhor estes 5 níveis:
·         Timidez específica: ocorre quando o tímido se inibe em determinadas situações ou em proximidade de determinadas pessoas.
·         Timidez crônica: ocorre quando o tímido já não se aproxima de ninguém, não faz amigos e não fala com estranhos.
·         Fobia social: ocorre quando o tímido já nem consegue exercer suas atividades rotineiras por simples medo de se expor.
·         Agorafobia: ocorre quando o tímido já demonstra pavor em permanecer em locais abertos e em meio a muitas pessoas. Nesse período é necessário tratamento terapêutico.
·         Síndrome do pânico: ocorre quando o tímido apresenta ataques de pânico que podem ser provocados por ansiedade e vergonha. Nesse estágio, o tímido já associou uma série de elementos psicológicos que se aglomeram, nesse caso o individuo necessita de tratamento (cf. www.brasilescola.com/psicologia/timidez.htm).              
Conhecendo os 5 níveis de timidez, o professor poderá adotar o melhor método de abordagem do aluno tímido, levando em consideração o histórico familiar, a convivência com os amigos e a relação deste aluno consigo mesmo. Falando assim, até parece fácil, mas não è. Os professores, na sua maioria, não são formados em psicologia, portanto nem sempre é fácil identificar estes níveis. O professor deve sempre observar sua turma, tentando prestar atenção em cada traço mencionado acima e, identificando alguns deles, abordar o aluno de forma diferenciada, não como um anormal, mas sim alguém com uma determinada dificuldade que necessita de uma atenção maior que os outros alunos mais desinibidos.
            Mas, como fazer esta abordagem? Observando a individualidade de cada um, o professor consegue ver determinados traços como isolamento e negação do grupo, pois o tímido prefere fazer tudo sozinho, deveres, tarefas e mesmo o trabalho realizado em sala de grupo.
Uma pessoa tímida é vaidosa (cf. Antonio Roberto, Enfrentando a Timidez, jornal Estado de Minas) e não admite o erro, por isso ela se retrai em seu mundo, com medo das pessoas apontarem seus erros, pois para ela é inadmissível errar, ela não pode errar. O medo do “não sei” faz o tímido se retrair, numa inaceitação de si mesmo, da sua natureza humana. A baixa auto-estima também é um dos fatores da timidez. A cobrança excessiva, rígida e até mesmo militar de si mesmo, faz com que o tímido não se relacione com outras pessoas, transformando a escola numa verdadeira tortura psicológica, num lugar onde as pessoas só sabem apontar seus defeitos e misérias.
É neste mundo de caos que o professor deve intervir, transformando este lugar de tortura em um lugar prazeroso para o aluno tímido. Depois de observar e detectar esta dificuldade do aluno tímido, o professor poderá adotar técnicas de aprendizagem que fará com que o aluno fique mais seguro para poder se expressar diante da classe, e uma destas técnicas é o uso do lúdico nas aulas. O lúdico consiste em utilizar jogos e brincadeiras para ensinar uma matéria, no caso de língua estrangeira, ele é essencial, pois desinibe o tímido através de jogos, fazendo com que ele (aluno) se solte mais nas aulas e se torne mais participativo, sendo este método de ensino muito eficaz no combate à timidez. Mas é necessário que os professores se capacitem para o uso desta e de outras técnicas, tornando o aprendizado mais eficaz e prazeroso para o aluno tímido, inserindo-o mais no grupo escolar e fazendo com que ele se sinta mais e respeitado na classe de aula.
            O teatro também é uma forma muito eficaz no combate a timidez, pois ele envolve o aluno de tal maneira que o faz se soltar de forma quase imperceptível, fazendo com que ele
expresse seus sentimentos de forma natural, sem contar no aprendizado que vem implícito neste contexto.
No mais, concluímos através do estudo feito para a construção deste ensaio, que a timidez é um dos fatores que mais atrapalha o desenvolvimento escolar, mas ele pode ser vencido.
O professor é peça fundamental nesta vitória, por passar, na maioria das vezes, mais tempo com os alunos que os próprios pais, sendo para ele mais visível a percepção e identificação das formas de timidez. O uso de técnicas de abordagem, inserção e aprendizagem podem fazer a diferença na vida escolar do aluno, e até mesmo fora dela, no convívio com a família e amigos, tornando este aluno mais corajoso para encarar seus próprios medos e fraquezas, solucionar seus problemas e se tornar uma pessoa mais feliz, tanto na vida familiar quanto profissional.
O professor é um dos protagonistas desta  vitória, pois, ajudando o aluno a superar seus medos e fraquezas, ele será um dos mais beneficiados com isso, e assim poderá dizer: “dever cumprido”.             
                                                                                                                                             

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

 Julio Cortázar


Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
Julio Cortázar
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Julio Cortázar

BIOGRAFIA

Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta, a sua obra é apenas comparável a nomes como os de Edgar Allan Poe, Tchékhov ou Jorge Luis Borges. Deixou igualmente romances como "Rayuela", que inauguraram uma nova forma de fazer literatura na América Latina, rompendo com o modelo clássico mediante uma narrativa que escapa à linearidade temporal e onde os personagens adquirem uma autonomia e uma profundidade psicológica raramente vistas.
Filho de pai diplomata, Julio Cortázar nasceu em Bruxelas, em 1914. Com quatro anos de idade foi para a Argentina, onde, devido à separação dos seus pais, foi educado pela mãe, uma tia e uma avó. Incentivado pela mãe, que lhe seleccionava o que devia ler, desde muito cedo que se interessa por literatura, ao ponto de na sua juventude um médico o aconselhar durante pelo menos seis meses a ler menos e a sair de casa para apanhar sol. Com o título de professor normal em Letras, inicia os seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras, que teve de abandonar logo de seguida, por problemas financeiros.
Por não concordar com a ditadura vigente no seu país, muda-se para Paris, em 1951. Quatro anos antes, por intermédio de Jorge Luis Borges, já tinha publicado o conto "Casa Tomada", o primeiro do livro "Bestiario", na importante revista Anales de Buenos Aires. Em Paris casa-se com Aurora Bernadéz e os dois vivem em condições económicas penosas. Será esta experiência que inspirará parcialmente "Rayuela" («O jogo do mundo»), que concluirá anos mais tarde. É ainda durante os anos de Paris que aceita o trabalho de traduzir toda a obra em prosa de Edgar Allan Poe, ainda hoje considerada como a melhor tradução em espanhol desse autor.
Morre em Paris, de leucemia, em 1984.
Da sua vasta obra, que inclui volumes de contos, romances e poesia, para além de "Rayuela" («O jogo do mundo»), publicado em 1963, destacamos: "Bestiario" (1951), "Final del juego" (1956), "Las armas secretas" (1959), "Historias de cronopios y de famas" (1962), "Todos los fuegos el fuego" (1966), "La vuelta al dia en ochenta mundos" (1964), "Ultimo round" (1969), "Octaedro" (1974), "Queremos tanto a Glenda" (1980) e "Deshoras" (1982).http://www.cavalodeferro.com/index.php?action=manufacturer_info&manufacturers_id=91

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

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Literatura Comparada


A Literatura Comparada  nunca teve parâmetros rigorosamente fixados. Assim sendo, se a princípio lhe cabia investigar, no início do século XIX, a trajetória de um determinado autor ou de uma certa obra no exterior, ou pesquisar as marcas deixadas por uma produção literária em outra do mesmo país, ou as dívidas de uma criação em relação a uma anterior ou até mesmo contemporânea, hoje ela é ironicamente chamada de Estudos Culturais  ou Comparatismo Cultural. Isso porque ela tem se ocupado mais, hoje, da comparação entre literatura e artes, ou entre literatura e disciplinas da área de humanas.
Sua tarefa seria, porém, analisar comparativamente duas ou mais literaturas. No entanto, este procedimento nunca foi uniforme, pois sempre se recorreu a métodos diferenciados, uma vez que os estudiosos deste campo abordavam objetos variados, trabalhando assim com um amplo espectro de ação, o que destaca o caráter de complexidade que a Literatura Comparada detém.
Há também uma carência de consenso entre as publicações sobre o assunto, principalmente quanto ás metodologias a serem adotadas. Tudo se torna ainda mais difícil quando se leva em conta que, muitas vezes, é necessário recorrer-se a uma metodologia mista, dependendo do que será analisado.
O importante é perceber, cada vez com maior clareza, que esta disciplina não deve ser entendida tão somente como um ato de comparação. Mesmo porque comparar algo é uma iniciativa de variadas áreas do conhecimento, um costume próprio do ser humano. A diferença na Literatura Comparada é que ela se torna o método por excelência, transformando-se no dado analítico principal. Este instrumento ajuda o pesquisador a investigar com mais propriedade a esfera com a qual ele se preocupa.
Atualmente, ao se observar mais intimamente a Literatura Comparada, fica claro que ela vem realmente sofrendo uma mudança profunda, talvez uma cisão entre dois paradigmas distintos no interior das pesquisas comparativistas. Se, por um lado, segue-se com a tradicional prática desta disciplina, por outro a literatura passa a se relacionar com a cultura e outros campos, tais como sociologia, psicanálise, filosofia e antropologia, analisada em pontos que se referem ao significado, à autoria, aos aspectos ideológicos, ao gênero, à identidade cultural e à diferença.
É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem. A França é o ponto de partida para os estudos comparativos, aí se fixando com maior rapidez, neste país assumindo a expressão com a qual se tornou conhecida em todo o mundo, embora às vezes competindo com o termo ‘literatura geral’ ou ‘literatura mundial’ – Weltliteratur, firmado por Goethe, em 1827. Hoje, a Literatura Comparada luta para estabelecer sua identidade e não se perder na amplitude de investigações em que vem se envolvendo.
Fonte